Você disse que eu deveria ser feliz


Você quis que eu parasse de me entristecer por ter você em mim e por ter um milhão de pedaços seus formando uma constelação de nós aqui no meu peito. Eu deixei essa melancolia me abandonar e vi as suas migalhas serem varridas para fora da minha mente.

Eu me vi sem você e o mundo não é tão escuro como eu achei que seria.

Vi uma luz que não era o seu sorriso largo ao se levantar da cama numa manhã de domingo. Vi um brilho que não era o seu olhar úmido por ter chorado de alegria depois de ter me visto após longos dias de saudade mútua. Vi pontas escuras por onde passei e estas não eram os sinais marcados no seu corpo despido sobre o lençol emaranhado. Senti uma maciez indescritível nas bocas que beijei depois de você e nenhuma dessas reclamou do meu hálito de cigarro mentolado após o café.

Eu descobri que a claridade que eu via era somente uma ideia que eu tinha sobre você.

Você disse que se partiria em mil pedaços se eu o deixasse, mas eu estou te largando aos poucos e bem devagar. E você continua inteiro. Cada parte sua ainda permanece no lugar. Uma vez você me disse que o amor não doía e eu chorei feito um filhote de leoa, porque o que eu sentia por você me feria como as garras de uma fera. Outra vez, você me disse que um amor sem dor não era possível de existir, porque ultrapassar essa linha era quase fatal e as sequelas dessa conexão me fariam arder.

No final, eu soube que você jamais enxergou a minha dor. E aquilo que tínhamos: não poderia ser chamado de amor. Nunca foi, nunca seria.

Cansei de intensidade, eu quero leveza


Nos livros que leio, nos blogs que visito, nas postagens que as pessoas fazem nas redes sociais, todo mundo só fala de intensidade, de querer conversas profundas o tempo todo. Reclamam da superficialidade e exigem reflexões transcendentais, "deus me livre alguém que sabe não morrer de amor", "longe de mim contato essa gente de zero sensibilidade emocional".

Tá, pode dizer: eu sou essa pessoa que não para de escrever sobre como eu sou oceano e odeio gente que é copo d'água.

Meh.

Gente intensa só me trouxe problema. Eu sou um furacão, um tornado sentimental, e o que acontece se você misturar isso com outro fenômeno natural? Mais catástrofe, eu diria. Explosão. É um evento que move cada partícula do nosso ser, que ferve nosso sangue e nos faz respirar ofegantes. No entanto, não dura. Nossos átomos acalmam-se, o sangue esfria, o fôlego é retomado e é quase como se tudo voltasse a perfeita harmonia de outrora, exceto pelo caos que fica quando o fenômeno chega ao fim.

Como tudo no universo, é preciso haver equilíbrio. Yin Yang, completude, pólos opostos, ou como queira chamar. É preciso terra firme e um porto para agarrar-se quando houver tempestade, profundidade demais só nos faz perder o chão. 

Eu quero calmaria, brisa leve e água de coco. Chega de gente que vem pra me virar de ponta a cabeça (e não é literalmente), cansei de sentir de tal maneira que dói e de pensar demais. Tanta intensidade, eu descobri, é o oposto de paz. 

Minhas três histórias de amor


Eu acreditava com todas as artérias e aortas do meu coração que tive três amores verdadeiros na minha vida até hoje. Três histórias de amor mais bonitas que Crepúsculo antes mesmo dos 20. 

Até parece. 

Depois de voltar um pouco no tempo e ponderar a respeito, o que eu percebi mesmo é que foram meus amores unilateralmente verdadeiros

Éramos adolescentes quando a primeira queda no precipício do amor aconteceu. Quando tudo é à flor da pele e o fim do mundo está em cada esquina. Tínhamos urgência de amor e estávamos dispostas a amar. Mergulhamos de cabeça uma na outra, no entanto, quando a maré abaixou, ela deixou claro que sua intensidade era tão efêmera quanto o seu sentimento.

Meu segundo amor: o mais duradouro e, arrisco dizer, o único que em algum momento foi real. Embora, cruel e eventualmente, deixara de ser. Destinatário da supremacia dos meus textos, dono de algumas tantas noites de insônia e razão de muitos suspiros. Parece que foi há tanto tempo que nos beijamos extasiados antes de estragarmos tudo, um vacilo atrás do outro. E, admito, é ridículo como ele ainda me faz cair nas suas armadilhas de sedução, indo e vindo pela minha vida como se tivesse passe livre pelos meus afagos, mas isso é assunto para outra crônica.

Por fim, meu terceiro e, até então, último amor. Meu maior desengano. Todo mundo tem pelo menos um desses na vida, eu acho. Uma desilusão que decepciona até o último fio de cabelo, que nos agarra de surpresa e faz a gente jurar que nunca mais vai se apaixonar por ninguém. Balela. Até hoje eu não entendo o que de fato aconteceu, parte de mim provavelmente ainda descrê que tanto amor que transbordei foi assolado de tal maneira.

Tem gente que leva uma vida inteira para encontrar sua alma gêmea, cara metade, tampa da panela, ou como queira chamar. Eu acredito que temos vários destes espalhados por aí: às vezes a gente se encaixa em alguém, às vezes esse alguém não se encaixa de volta e às vezes há uma combinação perfeita. No fim das contas, eu tive três amores, só não sei se esses três amores me tiveram.

Martha e a Liberdade de ler devagar

Há três dias venho tentando terminar o livro Liberdade Crônica de de Martha Medeiros, devorando seus textos como se não houvesse amanhã e ainda estou na metade. Quiçá, porque estou desabituada do hábito da leitura, quiçá porque suas crônicas não foram feitas para serem devoradas. Como Black Mirror e 13 Reasons Why, as cutucadas da Martha merecem ponderação. 

Seja nas suas íntimas análises de Woody Allen ou seu misturado gosto musical, também as abordagens de amor, sexo e relações de todos os tipos, Martha nos escreve. Ela é crua e intrínseca, feminista e livre, audaciosa e, no entanto, cautelosa com as palavras. Suas crônicas inspiram e também instigam, num nível que poucos conseguem. As famosas palavras que despem a alma.

Seus mergulhos em filmes monótonos e diálogos intensos nos arrastam para suas páginas vagarosamente, o real a fascina e ela não cansa de dizer. Engraçado, cativar-se pelo que não é fantasia, pela autenticidade da existência e todas suas controvérsias. E eu, maravilhada pelo particular e essencial, eventualmente deslumbrada pelas superfícies, aprendo a apreciar o simples.

Descobri, afinal, que liberdade não se conquista em apenas três dias.