Hoje foi um dia daqueles


Desses que o universo sussurra no ouvido que talvez seja melhor nem levantar da cama, entretanto, as obrigações do dia e a minha teimosia obrigam-me a fazer o contrário. Minha cabeça já é uma bagunça maior que meu guarda roupa e qualquer cabelo pela manhã; hoje, particularmente fui cruel comigo e açoitei-me com meus próprios pensamentos.

A cada segundo eu sangrava mais, uma hemorragia interna que ninguém podia ver, e eu temia que vissem. Depois de tantos anos, tive um colapso e derrapei na bola de neve que acumulei de coisas mal resolvidas e deixadas para depois. Uma montanha russa, eu sempre digo. Quando estou alto demais, a descida é ingrime e brusca. 

Resgatei o passado, tudo o que ainda volta para me assombrar eventualmente, as bagagens que eu não consegui deixar pelo caminho e as feridas que eu não deixo cicatrizar; Considerei o agora e todos os erros que eu sei que estou cometendo, e no entanto, não posso impedir-me (não?); Divaguei sobre o futuro e descobri que este me apavora, percebi que não há nada concreto, nenhum plano sequer.

E tudo dói, sufoca, machuca, explode, desvaira. E eu nem sei porquê.

Desabei no travesseiro como nos velhos tempos de adolescência, mal sabia eu, que ainda tinha lágrimas para lastimar. Acordei no fim do dia e respirei fundo, o ar ainda parece pesado e ainda não consigo pensar com clareza. É, hoje foi um dia daqueles, mas em três minutos ele acaba. Amanhã, quem sabe, é um dia desses outros.

O meu amor era maior quê e o seu era menor quê


Eu me esforcei para alcançar o que você dizia enxergar em mim. Eu percorri um caminho sem volta para estar perto daquilo que você dizia ter sonhado para nós dois. Eu quis ser perfeita para encaixar no seu molde. Recriei a imagem que você disse que não me servia mais e cacei por uma essência infinita vezes menor do que a minha só para me elastificar e me entulhar nos escombros que você nomeou de perfeição. 

Eu tinha uma dúzia de planos que me levariam à felicidade. Foi quando você chegou e me apresentou um único ideal, um único caminho, um único lugar. Só havia essa estrada e você me acompanharia até o final, porque ao chegar estaríamos unidos por um elo que jamais se romperia. Eu teria alcançado a felicidade, se você tivesse me deixado com o meu belo par de asas que me dava movimento e estrutura para prosseguir o meu caminho, voando, cantarolando e distinguindo as avenidas certas a serem cruzadas.

Eu queria ser sua, desejei me doar ao imenso afago cor-de-laranjeira que o seu colo possuía. Quis ter os seus dedos calejados adentrando o meu cabelo arrepiado. Sonhei noite e dia com os nossos corpos suados e dormentes após uma madrugada afetuosa de líbido e gemido. Foi você quem não me deixou ser, foi você quem não me permitiu voar. Eu queria ter asas e você escolheu cortá-las, porque a minha euforia ao falar das cores e do mundo te assustava. E você mal sabia, que durante os meus sonhos noturnos, eu o carregava comigo, voávamos pelo cais mais belo da cidade e não havia vento forte que atrapalhasse o meu voo. 

Eu só não soube ser perfeita. Descobri que não há como alcançar a perfeição, esse não era o meu caminho, eu não poderia atravessar aquela fronteira desconhecida por alguém que não via a minha imperfeição como uma mera coincidência da humanidade. Fico me perguntando se você teria aberto mão do seu planejamento para abraçar o meu destino. O mundo não nos oferece muito além de um par de asas e você o queria inteiramente ao seu dispor. Eu não tinha nada além da minha liberdade e o seu amor quase me custou a única riqueza que o céu me deu.

Eu finalmente entendi que o meu amor era maior quê e o seu era menor quê. Eu amei o seu espírito, despi o melhor da sua alma. Você amou o meu corpo, arrancou as minhas roupas. Eu amava os seus sonhos, ofereci uma carona e espaço para a bagagem. Você amava as construções que criou sobre mim, ofereceu-me uma gaiola e um discurso idealista. Eu finalmente entendi que enquanto eu queimava, você sequer borbulhava. Eu mergulhei, você nadou. Eu gritei, você sussurrou. Eu era inteira, você as migalhas.

Eu sempre me coube, você é quem não me servia. Nunca serviu.

Astronomia do amor


Somos pó de estrela, fragmentos de constelações. Dentro de mim uma galáxia que consiste de estrelas, remanescentes de estrelas, um meio interestelar de gás e poeira e uma infinidade de partículas suas, pois explodimos juntos num evento astronômico: supernovas, e toda nossa matéria escura dilui-se no brilho do nosso fenômeno galático. 

Nosso silêncio é um alvoroço de palavras que não precisam ser ditas, segredos do nosso universo observável. E entre nós não há espaço vazio, cada nanômetro é preenchido por matéria sentida (já que sentimos tanto quanto existimos, quase que uma condição existencial).

Seu corpo celeste seduz minha essência como a Terra provoca a Lua com seu poder gravitacional. É cientificamente comprovado que nossos astros formam uma conexão perfeita, mutuamente celestial. E não há nada mais que meus elétrons e prótons possam pedir, juntos somos equilíbrio, eu e você, infinitos

Por que você não me pediu para ficar?


Eu odeio você por ter ficado bem mais gato depois que a gente terminou. Eu odeio você porque eu não te conheço mais, ao passo que, mesmo com todas as mudanças e loucuras cometidas, eu continuo a mesma. Eu odeio você porque eu passo o mês te evitando, no entanto, inevitavelmente, em algum momento sou dominada por uma força incontrolável que me faz: espiar teus perfis (sofrendo silenciosamente pela boca que não é mais minha e pela pessoa que eu amei já não existir mais), mandar mensagem perguntando falsamente despretensiosa como você vai e retornar a esse ciclo que eu criei que é seguido de "fugir e te evitar novamente quando percebo a besteira que estou metida".

Mesmo sabendo que um dia você vai cansar desse padrão e dolorosamente cortar de vez os fios que ainda nos ligam um ao outro.

Eu nunca vou entender como a gente simplesmente acabou. Embora persista a sensação de que em algum momento, agora ou em quinze anos, vamos nos reencontrar, mais maduros e conscientes, e fazer isso da forma correta: Amar.

É que às vezes dói tanto ficar longe de você (quando eu não estou te odiando). Odiando por você ter esse cheiro tão bom e um beijo tão gostoso. Odiando por você não sentir mais o que eu ainda sinto e também por sair flertando com todas as garotas que encontra por aí. Odiando por me deixar escapar todas as vezes que eu saio correndo por não entender em que vírgula estamos: exclamações. reticências... Tudo menos ponto final. 

Quiçá eu tivesse ficado dessa última vez, as coisas pudessem ter sido diferentes. Contudo, estar perto de ti é como jogar sal nas minhas feridas e comer chocolate ao mesmo tempo. E eu não resisti ao impulso de te odiar por não ser mais meu.

Só que, você sabe...
Eu não te odeio, só sinto sua falta.