sábado, 3 de dezembro de 2016

The carousel never stops turning

Reconheço-me como nos velhos tempos, quando o ar não era suficiente e minha respiração era inquieta e árdua. Revivo as madrugadas de anos atrás, nas quais compunha escritos tão sorumbáticos quanto sinto a necessidade de fazê-lo agora. Abarroto-me no esmorecimento e corroo-me por melancolia, para preencher o vazio que carrego e não se finda, creio não haver epílogo na dor de um poeta.


Esporadicamente permito-me devanear com um futuro fascinante, por escassos instantes, confio quando repetem o quão promissor é o que reserva-me o destino. Não obstante, sou novamente sugada para dentro de mim mesma, onde tudo é sombrio e tétrico, onde a única coisa que enxergo é aquilo que não pode ser dito. Ridiculamente consigo despertar horas mais tarde, quando o sol quase se pôs e o único brilho que contemplo ao abrir os olhos é a luz artificial da sala que, petulante, invade o quarto por baixo da porta.

Eu provejo sinais. Evidencio nas minúcias, nos detalhes. Escapam-me gritos silenciosos, pedidos de socorro. Não constatas o meu óbito? Não atentas ao coração que bombeia o sangue e, no entanto, deixara de bater? Acusas meus atos como num purgatório divino afinal, e não notas que adoeci. Que pouco a pouco reúno coragem para curar-me da maneira que posso libertar a mim e todos a minha volta, de tamanho amargor.

Espero um dia me perdoar.

domingo, 13 de novembro de 2016

A Regra


A gente nasce sozinho, sabe? Mesmo tu que tem irmão gêmeo, o médico (ou a parideira) te tirou sozinho, um de cada vez. No começo é difícil, mas depois a gente aceita que tá nessa sem ninguém. Ou faz que nem eu que até hoje não entendi isso muito bem e ainda confundo gatos e cachorros (é esse o ditado?), ainda tropeço nas pedras que esconderam nos meus sapatos.

Esses dias foram difíceis, não é por nada, é só que desiludir-se com as pessoas é sempre triste. A gente acaba percebendo que há um padrão, que essas pessoas que passam pela gente e nos machucam não são a exceção, são a regra. Que, eventualmente, alguém de quem esperávamos rosas, despeja-nos espinhos.

E tudo bem a gente continuar se surpreendendo, porque não há culpa em não esperar o pior de todo mundo. Gostaria eu de ser como os sábios que enxergam além e mantém a desconfiança, a todo o momento preparados para cortar expectativas que insistam em florescer. Porque se tem algo que a gente faz, nós sentimentais e inevitavelmente intensos demais, é ter esperança, é sair mergulhando de cabeça em piscinas vazias, sem água. Quebrando a cara.

Essa conclusão não tem solução. A professora de redação ensinou que o último parágrafo tem um breve resumo de tudo (?) acompanhado de uma incrível resolução. Dessa vez eu não tenho. Essa noite eu só lamento por não ter aprendido a lição.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Eu senti sua falta, mas só até o fim do texto

Eu admito que estou cansada de escrever-lhe textos e e-mails que não serão enviados, palavras que você não vai ler. E no entanto, é o que me resta depois que você foi embora sem se despedir. Você ainda está lá, mas não está mais, se é que isso faz algum sentido. Permitir que você me amasse [se é que um dia amou] foi, quiçá, o maior erro que cometi. Porque depois disso nada mais foi como antes. Eu não sou mais a mesma, tampouco você. Perdi um amor. Perdi um puta de um amigo.


Eu redecorei todo o meu quarto e a primeira pessoa que eu queria que visse foi você, mas eu respirei fundo e mandei uma foto no grupo da família. Vou mudar o cabelo... novamente, acredita? E é uma droga não ter sua opinião dessa vez. Tenho passado as madrugadas acordada fazendo centenas de planos, enchendo minha cabeça com essas coisas do futuro que você sempre me mandou fazer, mas eu não posso mais te contar, porque você simplesmente não está lá. Você apenas não é mais a mesma pessoa que eu conheci sei lá quantos meses ou anos atrás e é árduo pra caramba para mim, aceitar isso.

E é por isso que eu continuo escrevendo os textos. Não por você, essa é a minha maneira de te deixar ir. É como eu digo adeus, escrevo até não haver mais nada a ser dito, até que eu me convença de que o ponto final no fim do último parágrafo não é mais uma reticência. É assim que eu faço minha poesia. Eu te dou minhas letras, minhas vírgulas, meus advérbios de intensidade e, por fim, um ponto final só seu.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Quando eu enxerguei


Para ler escutando essa música.

De onde vem os sonhos? Não os que acontecem quando a gente tá dormindo, digo aqueles que moldam quem somos e todos os nossos objetivos. Quem tem a audácia de plantar os impossíveis no nosso coração? Quiçá, uma vontade intensa de fazer algo que parece tão distante da realidade sob os nossos pés, ou ser alguém completamente diferente. O engraçado é que sempre que alguém chega lá nos conta como quem estava guardando o segredo da humanidade que se ele conseguiu, a gente também consegue. E até que eu acredito, bem lá no fundo, que a gente é capaz de qualquer coisa.

O que a gente imagina quando pensa no futuro pode até não ser o que gostaríamos que fosse, contudo, apesar do mais evidente que isso seja, sabemos que está tudo aí na nossas mãos. E muitas vezes até temos a faca e o pão, mas o que a gente faz? Come duas bolachas de cream cracker com dois dedos de café e se dá por satisfeito. 

Perdoa a analogia ruim e não desiste de mim. É que os sonhos, eles mexem com quem eu sou. Eles me desanimam e me jogam no chão com vontade de não levantar mais, uma soldada vencida. Quando deveria ser o contrário, não é? Nossa aspiração deve nos mover, nos empurrar rumo ao caminho que mais nos agrada trilhar. Não lutar não é uma opção. Porque por mais doloroso que isso pareça, só eu posso fazer isso por mim. Só você pode alcançar o que é seu. E no final das contas, é libertador. Me disseram isso há um tempo atrás, mas só agora eu decidi acreditar.

Espero que acredite também.