⚜

Café deBeira de
Estrada

Aqui guardo todas as cartas que eu nunca enviei.
✧

A pressa silenciosa de quem sente demais

Eu falo muito sozinha, engalfinhada em devaneios vivos que sempre me devoram. Em um desses alucínios, a Marília Gabriela me perguntou, em rede nacional:

— Qual o seu maior medo?

Lhe disse, muito sinceramente:

— Gabi, eu tenho medo de não dar tempo. — e abri os braços ao gesticular; eu gesticulo bastante enquanto falo. — De me pegar no meio da vida e perceber que não me reconheço em nenhuma das minhas atitudes nem decisões, de encarar um reflexo que já não me espelha mais. Isso acontece no meio do dia, acontece imediatamente após uma conversa — às vezes, durante ela. Imagina se não vai acontecer lá na frente também?

Tomada por uma nostalgia dolorosa de arrependimento antecipado, expliquei:

— E o pior de tudo, já não haveria tempo algum. Não tempo meu — talvez a vida ainda me guarde muitas outras décadas —, mas tempo de tudo, de todos que perdi sem que conhecessem outra coisa além daquilo que fui capaz de lhes dar antes de crescer, antes de ser eu. Mas, Gabi, se cresço todos os dias, e quem te entrego hoje já não é quem serei daqui uma semana, ou mesmo daqui a duas horas, como poderia haver tempo suficiente? Como dar mais do que sei agora, se ainda não sei aquilo que vou descobrir?

Falta-me tanto. Mas, sobretudo, falta-me tempo.

Onde foi parar?

Despeja-se, destes olhos cansados, água salgada. E mancha tudo no escuro invisível, onde apenas o esquecido pode ser lembrado. Maculei com armas do passado o presente envolto em fitilhos verdes de cetim no canto da sala, e entreguei-nos à renúncia. Em chamas flamejantes que brilharam até nos queimar.

Caí de joelhos e revirei as entranhas. Não é o latim que perturba nossas palavras, é a raiva que contaminou tudo o que foi tocado pelo — que um dia foi — sublime amor. 

Nem meu sono resguarda-me das algias deste frio. Queima, queima, queima durante o dia. Neva às noites.

A mala vermelha segue um fantasma no canto do quarto sem guarda-roupa. Como uma assombração que sussurra nas vértices da parede, correndo pelos rodapés até subir como um arrepio pela espinha dorsal. Às vezes, mesmo vazia, ela repousa densa, abarrotada de possibilidades mal dobradas, pronta para despache.

E de repente cinquenta metros quadrados parecem me engolir em milhas e quilômetros abundantes que já não me cabem mais. Pequenos demais para tanto. Gigantes demais para eu.

Que doce voz um dia me prometeu todos os versos e versículos do mundo. Uma eternidade delicada, frágil como meu próprio âmago, que revela-se mais finita que a própria vida. 

Que doce voz um dia prometi todos pontos e rezas à ancestralidade desta entrega. Uma aliança para todos os retornos a esta terra seca, um envolto para todas as vidas. E assisto desmanchar-se ainda nesta aqui.

E foge dos meus dedos — o toque da pele.
Dos meus lábios, a palavra mansa.
Dos meus olhos, os teus.

Onde foi parar?

As cinzas que restaram não me queimam mais

Encontrei descanso no teu corpo caído
Despencou das minhas memórias como uma jaca madura se desprende da árvore e espatifa no chão —
desta vez, não fui eu quem se despedaçou.
Levou contigo um ou dois galhos do meu tronco quebradiço,
mas minhas raízes fincadas nesta terra fresca sequer notaram a ausência do teu peso.

Ao eclipse da tua partida sucedeu uma deslumbrante aurora boreal,
clarões cintilantes de consciência.
Fantasmas não sobrevivem à luz
e o teu exorcizei há muito tempo atrás.

Como uma mosca, atraiu-se pelos fulgores do meu espírito resplandecente,
alimentou-se do meu calor e dos enleios desta minha alma,
até derreter tuas falsas asas de cera e findar-se no mar Egeu do esquecimento.

Que este breve encontro de duas décadas
tenha sido nada mais que um erro de cálculo,
um engano de uma chama 
que ardeu por tempo demais,
consumindo até o que não podia queimar.

E que, ao apagar-se, deixou apenas as cinzas
de um fogo que nunca soube quando parar.

Na ternura dos teus braços

Você bateu à porta com o nó dos dedos anunciando a chegada, com serenidade girou a chave devagar e, de passo brando, sentou à mesa do café comigo. Soprou sua calidez no meu rosto ruborizado com suas palavras mansas e beijou-me o espírito sem tocar-me a carne. Conversamos com palavras e também sem elas. Desaguei meu mar, desenhei tempestades, que à luz dos teus olhos não passam de chuvisco, e escutei o silêncio. Não destes que perturbam a mente vazia com especulações e nostalgias, não, um silêncio plácido que mora no ritmo da sua respiração e na amenidade da sua presença.

Dos teus braços fiou-se o manto que acolhe-me do inverno seco e friorento, e neste colo delirante mergulhei o todo meu juízo e devaneio. Sob as tuas águas profundas nunca me afogo, até teus redemoinhos marinhos são uma valsa melodiosa, girando-me para lá e para cá como a musa das canções da tua alma. 

Amo-te como se de história tivesse dois séculos e meio e, tendo vivido todas essas vidas passadas, cheguei ao nosso encontro pronta para recebê-lo e compartilhar da nossa existência o mais gracioso. Amo-te como se houvera eu nascido hoje, sem nenhuma mácula no coração delicado, e entrego-te sentimento cândido que jamais vira outra coisa senão a beleza do mundo e do castanho da tua íris. 

Devota-me, amor, tuas carícias e enamora-me neste glorioso infinito, é nossa a imortal eternidade.

Todas as vezes que amei, amaldiçoei os meus sentidos por sentirem demais

Malditos ouvidos os meus, que imploram por escutar de ti tantas vezes as mesmas juras de amor — para certificar de que você não as esqueceu. Malditos lábios estes que enfeitam o meu rosto soturno e declamam a ti todas as poesias românticas já escritas — para te dizer que de mim elas transbordam. Malditos também meus olhos, que te procuram em todas as faces e encontram o charme do teu sorriso travesso mesmo quando estão fechados. E que dizer das minhas mãos? Ah, essas traidoras... Elas sabem teu contorno de cor e, na tua ausência, desenham-te no vazio, como se moldassem tua presença a partir da memória.

Todas as vezes que amei, amaldiçoei os meus sentidos por sentirem demais. Carrego um coração condenado à sensibilidade, que sangra por amor e pela ausência dele, e peço, leva-o daqui! É teu, e já não pulsa em outro ritmo que não a do teu nome, em que cada batida é uma prece silenciosa, rogando para que permaneças.

E às vezes isso parece ser pedir demais. 

Talvez o verdadeiro infortúnio não seja amar tanto assim, mas ser uma alma entregue aos delírios do peito, que carrega memórias como feridas abertas. E nessas passagens efêmeras e impetuosas, descubro o peso de mim mesma, como se tudo que sou fosse um espelho do que já perdi — ou do que nunca poderei ter por completo.

Conheço apenas o toque da tua mão

Acordei com a saudade queimando na pele, do toque dissimulado da tua mão resvalando a minha, esvaindo do meu corpo todos os sentidos que não envolvessem você. Inspirava unicamente os eflúvios exalados pelos teus poros, chegava aos meus ouvidos apenas que a ternura da tua voz, e vislumbrava somente o fulgor que mora nos teus olhos cor de terra fresca. Nos lábios, senti o sabor que imaginei pertencer à tua boca.

Decidida a jamais sorver outra taça na vida, bebi do teu fascínio em doses embriagantes nessa doce projeção da tua presença. E jamais tive ressaca. No dia seguinte ardi apenas em lembranças tuas e desejei dobrar o espaço tempo para cortar a distância que mantém meus braços longe dos teus, curvar a eternidade às nossas juras de amor. 

E agora, ao despertar desse transe mélico, mesmo longe, tudo em mim te reconhece. O mundo ao meu redor se enche de ti, como uma memória viva que se entrelaça ao presente, perpétua e pulsante, como se cada batida do meu coração ecoasse o teu nome.

Dame de tu vida y de tu tiempo


Um formigamento percorre meus dedos, subindo até a palma da mão, que tremula à tua presença. Sinto escapar de mim dois suspiros, e no peito, uma vibração inquieta que teme ser desvendada. O coração, descompassado e urgente, parece querer romper a barreira dos ossos, da pele, da roupa — como se tua proximidade pudesse revelá-lo, desnudando todo o furor que guardo em silêncio.

Bastou uma tarde para apaixonar-me, uma hora para conhecer-te o espírito e cinco minutos para atrair-me profundamente. Roubaste-me um riso delicioso quando diminuiu o ritmo da rede que, deitada, me balançava, com medo que espatifasse este crânio tão bonito no chão. Outro quando tentava replicar minha majestosa habilidade de agarrar o amendoim arremessado ao ar com a boca. E ainda mais um, quando, exaustos de subir e descer a escada centenas de vezes, rendemo-nos a sentar no térreo e ficar por lá mesmo até todos os convidados irem embora. E outros tantos sorrisos que te entreguei sem resistência.

Conheço apenas o toque da tua mão na minha, um aperto platônico, casto e e repleto de uma cumplicidade muda, num piscar de segundos um universo inteiro atravessa dois olhares e dispensa toda e qualquer palavra. Que a brevidade desses momentos, efêmeros como são, reflita-se inversamente proporcional à eternidade das lembranças que nos deixaram.

E, assim, o que foi fugaz torna-se imortal, guardado no silêncio entre um olhar e outro, onde o tempo, finalmente, se curva à nossa vontade.

Carta à saudosa melancolia,

 

Saudosa melancolia,
tu, que me consomes desde os primeiros feixes de luz da aurora até os anseios que precedem o adormecer das minhas entranhas.

Desculpe a indelicadeza, mas prefiro a tua ausência. Quando estás, traz consigo esta inércia profunda que me prostra o espírito e, sem tolhimento, ramifica em minhas vísceras sua frigidez de enfermidades do coração.

Sem ti, é verdade, não me resta muita arte para prover, mas, deuses, sobra-me todo o resto! Tens bebido de mim como quem se serve em porcelana fina e não posso enxotá-la, mas por favor, não se demore. Espero visita mais tarde — meu eu, que há tanto se ausentou. Vê, melancolia, temos nos desencontrado, e enquanto te manténs aqui, ela não regressa.
E sinto-me falta. Tanta falta.

Leve contigo estas cores opacas, este sol que não brilha e tuas aflições infundadas ao sair. Guarde teu abraço moribundo na despedida, e saia da mesma maneira que entrou: despercebida e silenciosa. Deixa-me à janela, solene, a notar tua partida quando já não houver mais rastro teu aqui. Quando o perfume das rosas tornar a entorpecer meus sentidos e o toque da seda acariciar meus devaneios, saberei, melancolia, que já estás longe.

E isto me bastará.