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Café deBeira de
Estrada

Aqui guardo todas as cartas que eu nunca enviei.
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Carta à saudosa melancolia,

 

Saudosa melancolia,
tu, que me consomes desde os primeiros feixes de luz da aurora até os anseios que precedem o adormecer das minhas entranhas.

Desculpe a indelicadeza, mas prefiro a tua ausência. Quando estás, traz consigo esta inércia profunda que me prostra o espírito e, sem tolhimento, ramifica em minhas vísceras sua frigidez de enfermidades do coração.

Sem ti, é verdade, não me resta muita arte para prover, mas, deuses, sobra-me todo o resto! Tens bebido de mim como quem se serve em porcelana fina e não posso enxotá-la, mas por favor, não se demore. Espero visita mais tarde — meu eu, que há tanto se ausentou. Vê, melancolia, temos nos desencontrado, e enquanto te manténs aqui, ela não regressa.
E sinto-me falta. Tanta falta.

Leve contigo estas cores opacas, este sol que não brilha e tuas aflições infundadas ao sair. Guarde teu abraço moribundo na despedida, e saia da mesma maneira que entrou: despercebida e silenciosa. Deixa-me à janela, solene, a notar tua partida quando já não houver mais rastro teu aqui. Quando o perfume das rosas tornar a entorpecer meus sentidos e o toque da seda acariciar meus devaneios, saberei, melancolia, que já estás longe.

E isto me bastará.

Todas as palavras que jamais ousamos dizer

O vento beija tuas bochechas com a amabilidade que eu gostaria que partisse dos meus lábios, esvoaça estes teus cachos vermelhos que ascendem na tua pele marrom, como eu mesma ansiaria assanhá-los. 

— Você pensa demais, Helena. — Sua voz me arranca do devaneio, enquanto ela se reclina sobre a grama, apoiada nos cotovelos, os olhos fechados para escapar à brasa do sol que lhe acaricia a face. — Sempre que olho para você, está com essa expressão de quem carrega todas as respostas e perguntas do mundo. — Ela ri, abrindo uma palma sobre a testa para fitar-me sob a sombra com aqueles olhos de esmeraldas escuras, que guardam segredos de eras antigas.

— As maiores conversas acontecem na minha própria cabeça, Clarice. — Respondo, devolvendo-lhe o sorriso. — Enquanto você aproveita o sol, eu fico tentando entender o que já é bonito por si só.

Descanso o corpo do seu lado, o meu vestido azul escuro ondulando no ar como o teu verde florido, numa dança de cores. Com a ponta dos dedos, desenho um rio invisível sobre teu antebraço, sinuoso e gentil, até que desague em mim a tua torrente. Você se aproxima mais, quase vertendo nossos corpos a ocuparem o mesmo espaço e entrelaça os dedos nos meus, deitando a cabeça no meu ombro.

— Às vezes o que há para se viver fora do devaneio é mais interessante que a fantasia. — Murmura com doçura despretensiosa.

Guardo-lhe o silêncio. Clarice, uma ladra maviosa, sempre me rouba as palavras e faz de mim filósofa sem voz. Que posso dizer a um espírito que é tão seu que nem os olhos nem as palavras podem traduzir-lhe a essência? 

Compartilho, nestas brisas de outono, a quietude da tua companhia. A tarde se alonga como um manto de cetim sobre nós, coberto de constelações, onde cada estrela é uma promessa de mais um dia morando nestes dedos entrelaçados, no roçar dos teus lábios em minha testa, no sussurro das tuas palavras doces ao meu ouvido.

E em cada crepúsculo, veria o reflexo de nossas memórias projetado sobre o horizonte — uma tapeçaria invisível, tecida por todas as palavras que jamais ousamos dizer.

Eu menti para mim (sobre você)

Houve um tempo que eu acreditei ser senhora dos meus próprios sentimentos, como quem finge caminhar sobre águas calmas, sabendo do abismo que aguarda sob a superfície. Sussurrei para mim que você não passava de um capricho passageiro, uma travessura de almas errantes, e o pouco que me tinha a oferecer era suficiente para o espaço estreito que ocupava na minha vida.

Me chamou para ir embora. Para São Paulo, para Barcelona, vamos partir daqui! Gargalhei na sua cara. Um riso gostoso que me escapou aos lábios. Que outra resposta haveria para tamanho desvario? E sabia também que não falava sério. Dificilmente posso levar-lhe a sério. Promete-me o amor, sempre no passado, sempre no "e se", sempre no arrependimento de não ter me dado o que poderia ser nosso, enquanto eu ainda estou aqui. Para daqui outros anos, lamentar novamente os mesmos erros.

Diz que está aqui, mas é de uma presença tão inconstante que não tenho crença alguma na permanência. Hoje é meu, intimamente, completamente, freneticamente. Amanhã, deixa-me apenas ressaca e cama vazia.

Houve um tempo que eu acreditei ser senhora dos meus próprios sentimentos, e fingi descaradamente que você era minha poça rasa, piscina vazia. Mas toda vez que eu te mergulho, escorre dos meus olhos um oceano inteiro.


[essa é a última vez que eu te escrevo]

O inverno chegou para nós

O quarto era um mausoléu de lembranças que não eram nossas, onde o ar cheirava a lavanda e promessas não cumpridas. Os lençóis brancos sussurravam histórias de noites antigas, de amores de mármore tecidos em fios de seda.

Embriagadas de nostalgia, fizemos caber, em tão pequeno espaço, todo o inventário das nossas juras — esquecidas pelo tempo, lembradas pelo álcool e sepultadas novamente na sobriedade do amanhecer.

Teu sorriso foi clarão no estilhaço da noite, primazia dos teus enleios. Tuas palavras maviosas derretiam meu espírito em calor, ainda que a neblina fria embaçasse a janela.

Nos consumimos, até não restar mais nada a ser dito sobre essa fantasia de outono perene, onde as folhas nunca caem totalmente, mas também nunca se renovam.

E agora, o inverno se insinua sobre nós silenciosamente. 

Eu te culpo

Eu te culpo, todas as vezes que o espelho se recusa a devolver meu próprio reflexo, buscando noutros o que não encontro em mais ninguém — porque o que me falta foi roubado por ti.

Eu te culpo por ensinar-me o amor tão inescrupuloso, servindo-me migalhas em louça de prata, meu próprio sangue em cálice de cristal, e batizando a ceia de banquete.

Eu te culpo por permitir que eu continue caindo nos teus precipícios, jurando-me um paraquedas que sempre falha na descida. E eu morro todas as vezes que acredito.

Eu te culpo por ser o antídoto e o veneno que me consome da carne aos ossos, enquanto alenta meu espírito numa agonia doce.

Eu te culpo por enraizar-se nas minhas entranhas e fazer de nós tão eu mesma, que não sei onde termina tu e onde começa eu.

E culpo apenas a mim, por não saber amar outra coisa além do que tu amas. E tu, amas apenas a si mesmo.

Antes que eu deixe de existir

Uma epifania me visitou esta madrugada, e quase deixei de existir — se acaso ainda existo.

No desejo de lançar-me aos braços de um sono profundo como um bebê que se entrega ao choro mudo, embalado em canções de ninar — mas apenas aquelas que não evocam monstros no escuro, um pai que foi pra roça e a mãe foi trabalhar.

Diga-me todas as belas palavras que tiveres às mãos, indiferente à veracidade, desde que me façam florescer jardim nas entranhas e borboletas no estômago. As palavras certas derretem minha alma e moldo minha carne ao que fizeres de mim.

Sagrada e divina, herege e mortal.

Oh, santifica-me outra vez. Não permita que eu caia novamente nas garras do diabo — que sou eu mesma. Toma meu sangue em cálice de prata, e diz que não sou, não sou, não sou o mal!

(por favor)
Antes que eu deixe de existir.

Negaste-nos o direito de amar

Há três dias que chove, lampejos de trovão cortando o céu (da minha boca) em som e luz. Lá fora também está um temporal, ninguém quer sair na rua e encarar o aguaceiro.

Aqui dentro, eu não quero levantar da cama, desentupir o nariz e enxugar os olhos com toalha molhada.

Eu quero cair nos seus braços, secar meu rosto na sua camisa de linho preta. Fizeste a escolha da sua vida, mas ainda sussurra meu nome para as estrelas todas as noites de lua cheia quando ela não está ouvindo. Agora cicatriza tua dor, tal como eu, em corpos que não são os nossos.

Não escreve-me mais cartas, porque elas sempre acabam molhadas pelo meu pranto ressentido. E agora, um abismo tão pequeno, mas tão profundo nos separa outra vez. Como pode uma estima tão poderosa, submeter-se ao açoite do destino?

Emolduraste o amor em gaiola de vidro; para que seja visto, jamais tocado. Não posso sentir, não posso eximir. Arrancaste de nós a possibilidade de fazer deste substantivo trivial, verbo conjugado.

— meu amor é segunda pessoa do singular.

(Mais uma) ode ao romantismo

Entregue, sem meu pedido, rosas vermelhas às minhas mãos delicadas. Receba meu sorriso com outro maior e deixe que brilhe estes teus olhos castanhos, exuberantes de contentamento à minha companhia.

Finjo que não escuto tuas negações. Diga uma ou duas vezes, o quanto quiser, que não é de romantismos; ignoro tua petulância enquanto abres para mim a porta do carro, toca-me o espírito com gentileza e declama sua poesia em beijos sob a lua.

Há de convir, e sempre convéns, que não há, em outro céu ou neste mundo, intimidade como a nossa. Secreta e sagrada.

Te escrevi antes de saber ler, te floresci antes de vir à carne, te pertenci antes de ser minha.


(Fotografia: Lilya Kunitskaya)