
Andei pensando no que diria à psicóloga, se me dispusesse a consultar uma para começo de conversa. 50 minutos parece-me pouco demais para contar tudo o que pede Freud. Meus sonhos, minhas dores, minhas auto-analises, minha infância, minha família, meu eu. Ai de mim!
Eis que então me pergunto se vale a pena falar algo se não posso falar tudo. Falar pouco é o mesmo que falar nada? Para um espírito tão extremo, o mínimo não existe. Pior! O mínimo me consome.
Fico então, com todas essas palavras que me engolem todas as noites antes de dormir, sem proferir uma ou outra já que não cabem todas. Reservo-me a réu, promotora e advogada de mim mesma em madrugadas impossíveis de dormir. Acuso, defendo e sentencio-me ao silêncio. Culpada sem direito à exímio do peso da existência.
Perguntaria a ela, a psicóloga: “todo mundo sofre deste mal também?” Essa terrível reflexão de si mesmo em uma voz consciente que não se cala, falando e falando e julgando e julgando e gritando dentro da cabeça ininterruptamente por todos os dias da vida? Ou se trata de uma maldição que escolhe seus padecentes para carregarem o peso de tudo o que cabe na existência e, por acaso [ou castigo], sou uma de suas hospedeiras?


