Onde foi parar?

Despeja-se, destes olhos cansados, água salgada. E mancha tudo no escuro invisível, onde apenas o esquecido pode ser lembrado. Maculei com armas do passado o presente envolto em fitilhos verdes de cetim no canto da sala, e entreguei-nos à renúncia. Em chamas flamejantes que brilharam até nos queimar.

Caí de joelhos e revirei as entranhas. Não é o latim que perturba nossas palavras, é a raiva que contaminou tudo o que foi tocado pelo — que um dia foi — sublime amor. 

Nem meu sono resguarda-me das algias deste frio. Queima, queima, queima durante o dia. Neva às noites.

A mala vermelha segue um fantasma no canto do quarto sem guarda-roupa. Como uma assombração que sussurra nas vértices da parede, correndo pelos rodapés até subir como um arrepio pela espinha dorsal. Às vezes, mesmo vazia, ela repousa densa, abarrotada de possibilidades mal dobradas, pronta para despache.

E de repente cinquenta metros quadrados parecem me engolir em milhas e quilômetros abundantes que já não me cabem mais. Pequenos demais para tanto. Gigantes demais para eu.

Que doce voz um dia me prometeu todos os versos e versículos do mundo. Uma eternidade delicada, frágil como meu próprio âmago, que revela-se mais finita que a própria vida. 

Que doce voz um dia prometi todos pontos e rezas à ancestralidade desta entrega. Uma aliança para todos os retornos a esta terra seca, um envolto para todas as vidas. E assisto desmanchar-se ainda nesta aqui.

E foge dos meus dedos — o toque da pele.
Dos meus lábios, a palavra mansa.
Dos meus olhos, os teus.

Onde foi parar?

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