A pressa silenciosa de quem sente demais

Eu falo muito sozinha, engalfinhada em devaneios vivos que sempre me devoram. Em um desses alucínios, a Marília Gabriela me perguntou, em rede nacional:

— Qual o seu maior medo?

Lhe disse, muito sinceramente:

— Gabi, eu tenho medo de não dar tempo. — e abri os braços ao gesticular; eu gesticulo bastante enquanto falo. — De me pegar no meio da vida e perceber que não me reconheço em nenhuma das minhas atitudes nem decisões, de encarar um reflexo que já não me espelha mais. Isso acontece no meio do dia, acontece imediatamente após uma conversa — às vezes, durante ela. Imagina se não vai acontecer lá na frente também?

Tomada por uma nostalgia dolorosa de arrependimento antecipado, expliquei:

— E o pior de tudo, já não haveria tempo algum. Não tempo meu — talvez a vida ainda me guarde muitas outras décadas —, mas tempo de tudo, de todos que perdi sem que conhecessem outra coisa além daquilo que fui capaz de lhes dar antes de crescer, antes de ser eu. Mas, Gabi, se cresço todos os dias, e quem te entrego hoje já não é quem serei daqui uma semana, ou mesmo daqui a duas horas, como poderia haver tempo suficiente? Como dar mais do que sei agora, se ainda não sei aquilo que vou descobrir?

Falta-me tanto. Mas, sobretudo, falta-me tempo.

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