Por: Kênnia C. Arnaud | 0 Comentário(s)

O Universo no Olhar


Por saber que as janelas da alma são os olhos, eu sempre me atentei ao ato de reparar nos olhares afora. 

Eu nunca tinha antes caído de uma altura tão alta, até que os olhos de Tormenta dela me arremessaram para longe e eu me vi soberana dentro daquele oceano que me afogava. Melancólicos e felinos, era o olhar de uma gata vivendo sua última vida; e certa de que esta seja sua última vida, deixou-se ser nada menos que Eterna. Marcou-se em mim, aqueles olhos de tristeza copiosa. Eu nunca havia conhecido olhos tão triste em outrora. 

Sempre que a via, amolecia o coração, a garganta formava um nó, na barriga qualquer borboleta morreria, tamanha violência inundante me enfraquecia por dentro.

Ela dizia que tinha os olhos de sua mãe, sempre distantes, sempre aguados, sempre, sempre, sempre.
Eu dizia que ela tinha os olhos de quem me devora, de quem eu não saberia viver sem, de quem era fera mansa. Preciso dizer porque seus olhos me atormentavam, e esta síntese é ainda mais sôfrega.

Seus olhos tinham uma cede, uma cede particular de adentrar os meus. Eram límpidos e tristes, sim, saibam novamente que ela tinha os olhos mais tristes da esfera terrestre. Os meus, não. Eu tinha olhos de Marte, fumegantes, olhos de derreter e fugir. Como uma chama, o meu olhar estava sempre provocando calor e brasa. Criando círculos que faiscavam, mantendo qualquer contato visual mínimo à distância. 

Mas não com aquele par atormentador, aquele par de olhos melancólicas atravessaram sem pudor até chegarem aos meus. E isso me atormentava violentamente. Eu me lembro de quando nos encontramos após esse duelo da primeira vez, tormenta adentrando tormenta: faísca baixa, oceano tranquilo. 

Invada o prazer de alguém e prazer você também terá, nada mais. Uma pele sobre outra pele não causa nenhum estranhamento, senão uivos lascivos e contrações para o ápice. Depois? Depois acaba. Deixe que invadam os seus olhos, escavem os seus fogaréus, raptem todas as palavras que você nunca pôde dizer e veja o peso do Universo inteiro pousar em sua alma, acontecerá em segundos: olhos adentrando olhos causam aquilo que “estranhamento”, é incapaz de transcrever. Eu sei porque os seus olhos são tão tristes, ela sabe porque os meus queimam tanto. 

No mais, nunca, dividimos essa descoberta entre nós. Só continuamos a nos olhar. 

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