Eu quero parar de queimar


Meu corpo arde em chamas, flamejantes e impiedosas que liquefazem meu espírito. Os gritos sussurrantes no meu ouvido arrancam-me o que é concreto, há somente o que não vejo. E no minuto seguinte, o incêndio se foi, como se nunca tivesse estado aqui, uma alucinação momentânea que escarnece da minha sanidade. 

As paredes já não são mais de espinhos que brotam dos os escombros de mim, elas são azuis como sempre foram, com pôsteres de Harry Potter e da minha banda favorita. Dos meus olhos a cachoeira que escorre é cristalina, mesmo que tivessem sangrado em minha blusa de vermelho, ela continua branca, alva como quando saiu da máquina de lavar naquela manhã.

O céu brilha o azul mais ensolarado de todo o verão e eu poderia apostar que houve uma tempestade há apenas cinco minutos atrás, com abalos císmicos e ondas de vinte e seis metros de altura. Mas não há água em lugar algum senão no box do banheiro.

O apocalipse foi dentro das minhas costelas, em um peito acelerado que se desgarrou do tórax e subiu ao pescoço. Coração na ponta da língua. Engoli novamente enfiando-o na prisão perto do meu estômago. Onde suas artérias, veias e crueldade não podem me matar outra vez. Já não tem mais graça morrer em vida. 

O quarto ainda é azul, o sol brilha mesmo sob o crepúsculo da lua e há fogo apenas nos meus olhos.

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