O meu amor era maior quê e o seu era menor quê

sábado, maio 13, 2017


Eu me esforcei para alcançar o que você dizia enxergar em mim. Eu percorri um caminho sem volta para estar perto daquilo que você dizia ter sonhado para nós dois. Eu quis ser perfeita para encaixar no seu molde. Recriei a imagem que você disse que não me servia mais e cacei por uma essência infinita vezes menor do que a minha só para me elastificar e me entulhar nos escombros que você nomeou de perfeição. 

Eu tinha uma dúzia de planos que me levariam à felicidade. Foi quando você chegou e me apresentou um único ideal, um único caminho, um único lugar. Só havia essa estrada e você me acompanharia até o final, porque ao chegar estaríamos unidos por um elo que jamais se romperia. Eu teria alcançado a felicidade, se você tivesse me deixado com o meu belo par de asas que me dava movimento e estrutura para prosseguir o meu caminho, voando, cantarolando e distinguindo as avenidas certas a serem cruzadas.

Eu queria ser sua, desejei me doar ao imenso afago cor-de-laranjeira que o seu colo possuía. Quis ter os seus dedos calejados adentrando o meu cabelo arrepiado. Sonhei noite e dia com os nossos corpos suados e dormentes após uma madrugada afetuosa de líbido e gemido. Foi você quem não me deixou ser, foi você quem não me permitiu voar. Eu queria ter asas e você escolheu cortá-las, porque a minha euforia ao falar das cores e do mundo te assustava. E você mal sabia, que durante os meus sonhos noturnos, eu o carregava comigo, voávamos pelo cais mais belo da cidade e não havia vento forte que atrapalhasse o meu voo. 

Eu só não soube ser perfeita. Descobri que não há como alcançar a perfeição, esse não era o meu caminho, eu não poderia atravessar aquela fronteira desconhecida por alguém que não via a minha imperfeição como uma mera coincidência da humanidade. Fico me perguntando se você teria aberto mão do seu planejamento para abraçar o meu destino. O mundo não nos oferece muito além de um par de asas e você o queria inteiramente ao seu dispor. Eu não tinha nada além da minha liberdade e o seu amor quase me custou a única riqueza que o céu me deu.

Eu finalmente entendi que o meu amor era maior quê e o seu era menor quê. Eu amei o seu espírito, despi o melhor da sua alma. Você amou o meu corpo, arrancou as minhas roupas. Eu amava os seus sonhos, ofereci uma carona e espaço para a bagagem. Você amava as construções que criou sobre mim, ofereceu-me uma gaiola e um discurso idealista. Eu finalmente entendi que enquanto eu queimava, você sequer borbulhava. Eu mergulhei, você nadou. Eu gritei, você sussurrou. Eu era inteira, você as migalhas.

Eu sempre me coube, você é quem não me servia. Nunca serviu.

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2 comentários

  1. não tô sabendo lidar com esse texto. Que lacre menina! E nossa, esse texto é tipo uma fase que dá pra sentir viva em mim. Que lindo, quanto sentimento e quanta vivência ao mesmo tempo. Parabéns, parabéns. O blog por aqui tá super bem de colaboradora. Beijos

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    1. gratidão, Rebeca! Fico feliz sabendo que o texto agradou e que a minha colaboração para o 'Café' também! <3 volte mais vezes, meu bem.

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