POEMA | O crime do poeta


o escritor é um tolo
não é dono de nada,
nem sequer,
das próprias palavras.

entrega seus versos sagrados
em bandeja de ouro
e recebe os gritos aterrorizados
quando traduzem seu bem mais precioso.

incompreendido,
mas também não é nenhum coitado
já nasce benzido
porque também sabe que é culpado

de sentir o gosto das canções,
e não resistir ao aroma das cores
o poeta vive através das estações,
e é um viciado na poesia das flores.

estão todos reunidos
para o deslace da sentença
o que há de errado com o poeta
para que doa tanto a sua presença?

está louquinho o poeta!
o que escreve o réu é pura vulgaridade indiscreta
fala de asneiras e barbáries
"que triste momento para ser alfabeta!"

não teve nenhum pudor!
você não acreditaria como ousou,
atreveu-se o poeta a falar de...
amor.

(Rebeca Maynart)

4 comentários

  1. "entrega seus versos sagrados
    em bandeja de ouro
    e recebe os gritos aterrorizados
    quando traduzem seu bem mais precioso"

    Fiquei imaginando como deve ser, na prática, a angústia de escritores que pensam nas palavras certas que são traduzidas com as erradas - tradução do mundo linguístico e da interpretação de quem lê.

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    1. Exatamente isso, Amanda. Não somos donos do que escrevemos, uma vez escritos é de quem ler e entender como quiser e puder. ♥ Obrigada pelo carinho!

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