Por: Rebeca Maynart | 6 Comentário(s)

CRÍTICA: Insatiable (Netflix)

terça-feira, agosto 14, 2018

Insatiable é uma série original da Netflix que foi odiada antes mesmo do seu lançamento. A premissa de uma adolescente que era gorda e ficou magra para vingar-se de todo mundo, soa uma perpetuação dos estereótipos hollywoodianos, clichês e maldosos, e eu ainda não decidi se a série faz jus a esses pré-julgamentos. Não posso negar que assisti a temporada inteira em uma noite, no entanto, "maratonar" é meu nome do meio e, portanto, não posso ser usada com parâmetro.

AVISO: O texto terá, inevitavelmente, alguns spoilers.

Inicialmente, a série segue por chavões que a gente já viu centenas de vezes, até que de repente: tudo fica BEM doido! Vamos por partes: Insatiable apresenta diversos preconceitos e intolerâncias nas tramas de seus personagens, um ponto extremamente positivo é a abordagem da sexualidade: natural e muito bem trabalhada. Em contra partida, alguns problemas são apenas jogados no colo do espectador, sem nenhuma resolução destes ou conforto de um desfecho. Muitos destes problemas são propositalmente exacerbados, como a gordofobia e homofobia, trazidas de forma a incomodar quem está assistindo, especialmente se você faz parte de algum destes grupos, gerando reflexão e análise de como tratamos quem é diferente. A magreza é tida como mágica, um divisor de águas, a melhor coisa que poderia acontecer (isso é reforçado constantemente nos diálogos), chega a ser desconfortante nos primeiros episódios. Até que, junto a protagonista,  Patty (Debby Ryan), percebemos que seu vazio existencial vai muito além do estômago (Patty, sofre de transtornos alimentares).


Fatty Patty era o apelido da protagonista quando era gorda. A caracterização dela nesses flashbacks é, inclusive, bem paspalhona, com enchimentos somente na barriga e uma papada desproporcional ao resto do corpo. As cenas de compulsão alimentar são fortes e li duras críticas a respeito, essencialmente, porque a personagem nunca é mostrada comendo, exceto nestas situações, como quando devora um bolo de aniversário enorme com as duas mãos (lembrou-me da cena famosíssimo de Matilda que seu colega come um bolo de chocolate à mando da diretora). Levando em conta que ser gordo já é visto pela sociedade com maus olhos, como alguém que não se cuida e que come porcamente, são cenas crueis, afinal, um adolescente sem muito senso crítico assistindo àquilo, alimenta dentro de si esse conceito. 

Patty é assustadoramente problemática, causa angústia e raiva observá-la — literalmente — enlouquecer. Ela não conhece seu pai, sua mãe é alcoólatra e a adolescente tem sérios problemas com abandono (e um ódio que ela cultiva impetuosamente). Patty é egocêntrica, narcisista e provavelmente sofre de algum distúrbio de personalidade. A loira quer vingar-se de todos que um dia a fizeram sentir-se mal, ganhando concursos e tornando-se a Miss USA, um sentimento que se transforma numa obsessão, algo que de repente lhe parece a solução que irá tapar o buraco negro, o imenso vazio dentro dela, o que finalmente a fará sentir-se bonita. Desejo este que ela abraçou e que, a princípio, nem ao menos era seu, e a jovem não mede esforços para alcançá-lo. 


Em algum ponto de Insatiable você simplesmente coloca a mão na testa e assiste aos episódios implorando para que Patty PARE DE FAZER BESTEIRA. Também há momentos que o rumo da série parece muito bom e que há algo sério acontecendo, entretanto, você é logo arrancado desta fantasia e jogado num besteirol. Por outro lado, Bob Armstrong (Dallas Roberts e meu personagem favorito) tem um desenvolvimento muito bom e apaixonante de assistir, bem como Nonnie (Kimmy Shields), melhor amiga de Patty. 

Afinal, vale a pena assistir? Insatiable não é apenas sobre a insaciedade de comer compulsivamente, é sobre nunca estar satisfeito, sobre como nada nunca é suficiente. Os personagens sofrem com suas imagens (vivendo vidas de aparências, sufocados pela inveja), sofrem do vazio que não é suprido com o que achavam que seria. E em algum momento você provavelmente se identifica com alguém, seja por algo bom ou ruim. Se você já odeia a série antes mesmo de assisti-la, fazê-lo só vai constatar os preceitos que você já criou. Do contrário, a série inegavelmente tem muitas falhas, mas se você tiver tempo livre, é interessante ver e tirar suas próprias conclusões.

6 comentários:

  1. Miga eu já odeio a série antes de assistir! Hahaha mas o que me incomoda é que todo mundo falou mal da premissa da série, sendo que no dia a dia tudo segue igual.. nao é como se a gente tenha parado com a gordofobia, homofobia e todas as outras fobias. Hipocrisia ne? Mas acho que isso é viver em sociedade.. De qqr forma, curti como você trouxe pra cá a série e como você explicou ela. Beijos de luz Beca =)

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    1. Sempre que algo é muito odiado ou muito hypado pela internet eu fico com um pé atrás, amiga. Nesse caso, decidi que só poderia saber de verdade, assistindo.
      KKKK eu também pensei que ia odiar, mas a série é tão LOUCA (mesmo) que ela segue por caminhos que fogem completamente de qualquer previsibilidade que a gente possa ter antes de realmente assistir. No entanto, também não acho imprescindível nem a melhor original do netflix, então, não é como se você fosse perder algo muito importante haha.
      Concordo contigo nessa questão da hipocrisia.
      Obrigada pelo apoio de sempre, Beca, você é demais s2

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  2. Amei essa crítica, sério. Você seguiu pelo menos lado que a Alexandra do Alexandrismos e concordo em tudo o que falou.

    Não gostei da forma como a série desandou para o besteirol, acredito que ela podia ter sido mais, sabe? Contudo, entendendo que era o que a série estava proposta a fazer e fez bem. Não sei se foi uma boa escolha usar o tipo de enredo para fazer as críticas que fez, mas no fim, ela seguiu o que se propôs.

    O blog é lindo, parabéns mesmo! <3

    com amor, Eva
    amavelgirassol.blogspot.com

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    1. Sim! A crítica dela também foi muito bem colocada.

      E muito obrigada <3

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  3. Eu tenho lido muito sobre ela, meio que procurando algo que me diga que não é super problemática como eu imagino que seja. Mas depois de ler tanto eu acho que cheguei na conclusão de que simplesmente não vou me dispor. Vou dar chance pra alguma outra série no lugar.
    Acho que o tema podia ser usado de uma forma bem diferente. Algo que não fosse só estereotipar ou só falar/rir. Eu tenho alguns probleminhas com o humor americano em geral.
    Enfim, doideira.

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    1. Agora, depois de um tempo que assisti, devo dizer que: com toda certeza poderia ter sido trabalhado 10x melhor.
      É um humor bem besteirol, a série não tá nem um pouco preocupada com nenhuma problematização ou passar mensagem especial sobre nada. É só um monte de loucura acontecendo uma atrás da outra para prender o telespectador numa trama sem pé nem cabeça.
      Se eu gosto de tramas ruins? guilty, não posso ver um filme de baixo orçamento e baixa recomendação no Netflix que eu provavelmente assistirei. Dont ask me why. Provavelmente vou ver a segunda temporada só para ter certeza que não será uma completa concretização de loucura (ou simplesmente porque meu hobby é matar tempo). Mas definitivamente tem coisa muito melhor para assistir!

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