Por: Kênnia C. Arnaud | 3 Comentário(s)

Onde há sombra, existe uma luz refletindo



Às vezes você precisa sentir o coração se dissolver, escorrer para fora do corpo e tornar-se um vácuo asqueroso dentro peito. Você precisa sentir o vazio de estar distante de quem costumava pensar que fosse. Você precisa se olhar por dentro e não enxergar nada além de uma coleção infinita de dores que foram nascendo uma em cima da outra, criando um amontoado gigantesco de danos irreversíveis. Você precisa deixar o dia passar bem diante dos seus olhos e não ver beleza algumas naquelas frestas douradas de sol que transpassam a janela da sala. Você precisa caminhar tão apressadamente que não sentiu o perfume de alguém que estava sentado do seu lado no transporte público, e o cheiro era tão bom. Você precisa perder a visão que a alma tem de tudo o que o rodeia.

Das verdades universais que eu cresci ouvindo passear de boca em boca, há uma que me pesou mais do que qualquer outra. Depois de perder, você encontrará o valor do que se foi. E então será tarde demais. O desamor pela vida e suas simplicidades doces será o preço que você irá pagar até que volte a respeitar cada detalhe que o mundo reserva. Existe algo na mitologia que se chama Roda da Fortuna, há diversas simbologias que a cercam, mas a melhor interpretação que se faz dela é o processo de quedas e subidas que o homem tem durante o seu percurso de vida. Fortuna não é a quantia de zeros no seu saldo bancário, Fortuna é qualquer riqueza que lhe torne alguém feliz. Imagine que estamos dentro dessa Roda que é a própria vida, estamos no topo e de repente o chão é a nossa estadia. Uma vez lá, você conhecerá o medo na forma mais assustadora e compreenderá a solidão como um bicho papão reconfigurado para assustar adultos.

Mas você conhece os tons de luz que a felicidade o envolve, você recorda dela, porque a sentiu aos sete anos de idade quando a vovó fez aquele bolo caseiro de banana e canela. Você se lembra do que é sentir amor, ele estava lá quando o seu pai comprou a primeira bicicleta que fez você ralar os joelhos. O carinho visitou o seu peito quando aquela amiga disse que faltaria uma aula só para te ouvir falar o quanto doeu se apaixonar novamente. Ninguém receberia a nostalgia melhor do que você, quando ela vier com cheiro de chuva e chocolate quente debaixo das cobertas. Você conhece cada tom de luz que vem do sol, sabe que pela manhã o brilho fere os olhos e no final da tarde ele sai mansamente pelas frestas da cortina, mais tênue e mais convidativo. Então você sente que conhece a paz, porque é essa a cor que ela tem, ela tem cor de crepúsculo, quando você se sai na janela e se despede de mais um dia.

Quero que você se lembre de cada detalhe que fez o coração pulsar estonteante sempre que achar que está confortável sendo um véu triste perdido no caos que há lá fora. Se você conhece o caminho da felicidade, não devia estar gastando tanta energia acreditando que nasceu para ser solitário e vazio. A vida é sobre quedas que rasgam e desafiam, mas também é sobre seguir depois do tombo e enxergar um mundo de possibilidades. Faça uma meta de vida, trace um objetivo, tire as roupas do armário e lave-as, passe um dia pintando girassóis, ligue para um parente, teste seus dotes culinários e tente aquela receita de torta, convide um amigo para ir ao cinema, vá à praia, caminhe antes do sol nascer, diga as flores o quanto elas cheiram bem, depois tente o mesmo elogio com um desconhecido no metrô. Redescubra o que é pertencimento, apaixone-se novamente, por alguém novo ou por quem já está ao seu lado, apenas ame. Reinvente conceitos para aquilo que significa sentir, e sinta. Permita, pertença.

Seu caminho pode ser curto e pode ser longo, é você quem decide como vai traçá-lo. Estamos aqui para dar o nosso melhor, temos a oportunidade de buscarmos a melhor versão de nós mesmos. Depois do dia vem a noite, depois da luz vem a escuridão. O sol vai, para dar lugar a lua, mas ele volta na manhã seguinte, porque precisamos dessa radiação. O que você precisa fazer é enxergar o contraste dos dois extremos e compreender que assim como o sol, você está indo e vindo, às vezes brilhando em excesso, às vezes escondido entre uma nuvem ou outra, às vezes tímido e fraco, às vezes nem vem, às vezes manda a chuva, mas está sempre ali. Só não se deixe esquecer de como é brilhar ao ponto de ameaçar os olhos. E brilhe.

3 comentários:

  1. um momento
    preciso de uma pausa para respirar e deixar as metáforas ecoarem mais um pouco na minha mente antes de continuar
    [...]
    seus textos parecem que tem marca d'água. Sabe? quando é tão seu que não poderia ninguém mais ter escrito? são teus textos. eu não consigo ver ninguém mais fazendo metáforas sobre "tons de luz", crepúsculos e incentivando alguém a pintar girassóis. (tudo isso de forma tão convincente)
    e muito bonita.
    obrigada por escrever.
    Digo, num geral, é um presente para o mundo.
    e também obrigada por este texto em especial, acho que precisava de algo assim nesta noite.

    mil beijos

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    Respostas
    1. que comentário lindo, Bec. abraçou o meu coraçãozinho em cheio! eu adoro o jeito que apreciamos a arte uma da outra, obrigada pelo carinho de sempre. <3

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  2. Nem sei onde começar a comentar. Tanta coisa linda e profunda. Senti que a alegria e a tristeza dançavam um tango compassado à medida que lia suas palavras. Arrasou, Kênnia!

    Beijos!

    www.vivendolaforanoseua.blogspot.com

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