Por: Rebeca Maynart | 3 Comentário(s)

Por favor, vamos falar de humanidade


Eu observei o teclado por alguns minutos, respirei fundo, cocei os olhos, abaixei a cabeça e coloquei uma playlist tão pesada quanto o sentimento que carrego agora, antes de, enfim, começar a redigir este texto.

Ser sensível num mundo tão cruel é, eu diria, uma das piores coisas que podem acometer a um ser humano adulto, quando, em sua grande maioria, adultos vivem como indivíduos enclausurados em sua própria bolha particular. Não nos é ensinado a profundamente importarmos-nos com o outro, não nos é ensinado humanidade, muito pelo contrário, esperam que a perdamos um pouco mais a cada ano que passa; o que sabemos por toda nossa vida é que é cada um por si. Exceto, é claro, por nosso ciclo íntimo e minúsculo de amigos e familiares que nos trazem um retorno emocional ou de qualquer outro tipo. A lógica é de que não valem os esforços para ajudar quem não conhecemos.

Diariamente, somos atropelados de notícias ruins, na televisão, nos feeds sociais, na tela do seu celular, numa conversa qualquer, alguém em algum lugar do mundo está sofrendo  sem ter feito nada para merecê-lo. Alguma mulher em algum lugar está apanhando de um homem que não conhece nenhum destes significados conversados acima. Alguém em algum lugar se contorce de fome ou de consequência do preconceito. Em algum lugar, agora, alguém tira a própria vida porque sentiu que estava pesado demais. 

E respondem-me que não há nada a fazer, não se muda o mundo. É assim e pronto, aceite e pare de absorver essas energias, pare de pensar nisso, você já tem seus próprios problemas para se preocupar. É o que me dizem. E a Terra continua a girar, no seu movimento de rotação e translação, indiferente e alheia ao que se passa sobre seu solo; todo mundo parece ocupado demais tentando alcançar desejos que perderão-se com o tempo, sonhando com o carro do ano e a última bolsa da Gucci. E não é errado, é só... estranho.

Lemos livros e assistimos filmes sobre distopias, e sociedades distantes(?) que não passam de reflexos e analogias do nosso presente. Maratonamos Os 13 Porquês, escrevemos textões no facebook, levantamos a bandeira anti-bullying, dois meses depois, lá está o mesmo adolescente, com amnésia conveniente, sendo cruel com um de seus colegas. Nossa solidariedade tem prazo de validade. Uma mulher foi agredida numa das boates mais caras de São Paulo, as pessoas assistiram e, com naturalidade, nada fizeram, até uma outra mulher, segurança, defendê-la. Em especial, este caso motivou-me a escrever esse texto nessa manhã de sábado. A dor, a raiva, a frustração e indignação que senti, fora demasiada para mantê-la guardada para mim.

Por que somos tão egoístas? Por que ter bilhões em uma conta no exterior que você não vai ter vida útil para gastar enquanto um país sangra na pobreza? (essa vai para nossos governantes) Por que vemos a angústia do outro, deitado no papelão num ponto de ônibus e isso desperta-nos medo, ao invés de compaixão? Por que pagamos tão caro em produtos de provindos de mão-de-obra escrava? Por que agimos como se nossas dores fossem as únicas que importam? Por que somos tão crueis quanto aqueles que fazem o mal, quando o vemos e não fazemos nada?

Infelizmente, não tenho nenhuma destas respostas e acredito que ninguém as tenha. Entretanto, deixo-as aqui, para que ao menos hoje, sua bolha seja estourada, que ao menos hoje, enxerguemos o outro também. E peço desculpas, por respirarmos um mundo tão tóxico.

3 comentários:

  1. Beca!!! você voltou!! Welcome back!! Parabéns pelo post. Eu sinto que cada vez mais precisamos fazer um "esforço" para lembrarmos do próximo ou sermos bons uns com os outros. Deveria ser natural mas não é. É como você falou, não nos ensinaram nada disso. Parabéns pelo seu texto. Fiquei feliz em ter você de volta. Beijo =)

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    1. Muito obrigada, Beca <3 sempre bom estar de volta.
      E muito obrigada pelo carinho.

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  2. Exite uma parte acima no texto que precisa ser acrescentada .
    Em algum lugar do mundo tem mulher matando um homem também .

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