Por: Rebeca Maynart | 4 Comentário(s)

Carta número 1

terça-feira, julho 25, 2017

Olá,

Estou arrumando as malas. Discretamente esvaziando as gavetas dos cômodos e arrumando as bagagens (escondidas debaixo da pele). Há algum tempo eu quero deixar esse lugar, espero que entenda. Eu avisei algumas muitas vezes, eu escrevi em letras garrafais na minha testa. Mas desculpe, não há muito o que possas fazer, sabe? Eu não me caibo aqui, há muito de mim que não se encaixa nesses cantos pequenos, nesses olhares atravessados e nesses diálogos vazios.

À vista disso, já sabe, eu pretendo ir embora. Não pergunte-me quando, todavia, não duvide que eu vá. Talvez eu duvide, no entanto, eu duvido que fique por mais muito tempo também, então quem sabe o que pode acontecer?

Não pense em aviões, eu tenho medo de altura; nem navios, o mar me apavora. Ainda que, de nada importa minha rota: uma vez que eu siga destino, jamais poderá encontrarar-me novamente. Porque depois que se vai, não há como voltar atrás.

E não há um dia sequer que eu passe sem pensar em pegar todas as minhas coisas e partir. E dizer tchau. E pedir desculpas por dizer tchau. Talvez sem tchau. Não é como se eu não quisesse ficar. Despedaça-me ter que abandonar tudo aquilo que (ainda) me mantém aqui, contudo, retalha-me continuar no mesmo lugar também. Minha respiração arde como a de um mergulhador com balões de oxigênio limitados, preciso fugir para onde há terra, grama, flores

E paz.

4 comentários:

  1. Às vezes a gente quer ir embora, mas ao mesmo tempo acaba inconscientemente fazendo de tudo pra ficar, né Beca? É difícil quando os sentimentos são tão contraditórios, mas precisamos de novos ares também. Esse teu texto me deixou em pedaços, que coisa mais linda <3

    Beijos!

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    1. Que bom que tu gostou ❤ Fico muito feliz quando tu passa aqui.
      Às vezes tudo o que a gente precisa é se renovar, né?
      Obrigada pelo carinho!!

      Mil beijos

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  2. Teu texto me lembrou de um trechinho de Clarice Lispector, algo como "não me deixe ir, posso nunca mais voltar". De fato, às vezes a partida consegue ser tão dolorida quanto necessária. No entanto, é essencial nos movimentarmos, renovar ares... Muito bom o texto, Rebeca (:

    • https://acid-baby.blogspot.com

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    1. Às vezes a gente precisa ir.
      Obrigada, moça s2

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