Por: Kênnia C. Arnaud | 0 Comentário(s)

O romance curto entre duas estrelas perdidas


Você está me deixando hoje e me pergunta se vai doer. Eu digo que já dói e peço para que vá em paz: sem remorsos e sem culpa. Essa dor é minha. Deixe-me ser dona daquilo que me pertence. Essa dor é minha. Quero que vá, você é livre. Eu estou te dando a liberdade de escolher partir para longe de mim. Vá, antes que escureça e fique tarde. 

É claro que dói. Não há nenhum pedaço meu que já não esteja ferido o bastante. O que você me causou foi somente uma lembrança que magoa a ferida jamais cicatrizada. Estou ouvindo você repetir pela segunda vez se eu ficarei bem quando você for embora. 

 Vou. —  digo logo, sem muito devanear. 

Vou sobreviver, é para isto que eu nasci: para sobreviver a cada laço desfeito. E você tem essas lágrimas fingidas nos olhos. O que acha que me faz sentir quando tenta me persuadir assim? 

 Pare de fazer cena! — peço eu, atordoada com a simulação do não-romance entre você e eu. 

Está chorando por quê, se quem irá partir é você? Está chorando por quê, se quem se feriu fui eu? 

 Ei, não diga assim! Dói também em mim!, — diz tu. Cheio de truques na manga. — Estou te deixando por ter falhado na promessa que fiz. Prometi te amar mesmo quando a luz do dia não se mostrasse interessada a iluminar um vão tão extenso de escuridão. Prometi a ti que não me cansaria de carregar o peso da tua alma tão quebrada. Prometi que aguentaria o teu silêncio barulhento e o teu jeito nada jeitoso de engolir a si mesma e negar a mim que algo te afligia e eu só não saberia o quê. Prometi ser teu porque te amava e agora estou de malas prontas por não cumprir nada do que te fiz acreditar. 

E eu me zanguei só de te ouvir recordar as promessas vazias. De repente a algazarra dentro do meu peito se calou e nada ali dentro se mexia mais. Congelei de dor. O meu coração não reagia mais. 

 Eu mostrei quem eu era desde o início. — repliquei logo, a voz embargada e o olhar enegrecido. 

Disse que estava na hora de você ir, pois eu não era nada fácil. Expliquei:

 — Esta alma está perdida. Quer amar alguém que já se perdeu? 

Você me afagou, trouxe-me ao teu colo na marra. Ouvi o tom macio e enganador de voz me jurar paciência. Senti um quê de poesia fluir do teu pranto aquecido. Não me sai da cabeça o momento em que me disse: "há brilho o suficiente para nós dois dentro de mim. Por aqui, você nunca ficará no escuro.", resmunguei toda resistente: — Não diga tolices. Não sabes com quem está lidando. À minha porta bate a destruição. Nada aqui é inteiro por muito tempo. Estou acorrentada na minha própria masmorra. Foge que ainda dá tempo! 

E houve tempo para se ir antes que o alvorecer chegasse e tornasse toda aquela cena um grande momento inesquecível. O nascer do sol e a sua beleza inquestionável que sejam infinitamente amaldiçoados. Soube naquele instante em que os teus olhos cruzaram os meus que nós dois havíamos cruzado uma linha fora do meu limite habitual. Despi, enfim, o meu espírito. Estive nua por você. E agora que estamos rompendo essa sintonia irreparável, gostaria de dizer "Obrigada", Obrigada por me devolver a certeza de que um coração vazio é na verdade um horizonte que naufragou de tanto amor que jorrou e somente desperdiçou.

Obrigada, pelo não-romance entre alguma estrela perdida que havia dentro de você e eu.

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