Por: Kênnia C. Arnaud | 1 Comentário(s)

Eu preciso ser salva o ano inteiro, setembro é só um mês


O ano inteiro o meu coração adoece silenciosamente com uma dor lamuriosa que é excluída de infinitas maneiras dolorosas. Eu preciso ser salva o ano inteiro, setembro é só um mês.

Quando eu falo da minha depressão as pessoas me olham com um julgamento aflito de quem acredita que tristeza é um momento solucionável à base de bíblias, chás e sorrisos forçados. Eu ouvi todos os dias alguém sussurrar que eu não me esforçava o bastante e nunca iria melhorar em cima de uma cama chorando inutilmente. Eu morri todas as vezes em que o meu pai achou que eu estava fingindo, ou quando acharam que eu estava curada porque dei risada vendo um vídeo no celular. Eu me silenciei sempre que diziam que suicídio era covardia e só amaldiçoava à alma. Eu sempre quis gritar, aos prantos, a todos ali, que eu nunca quis morrer, eu só desejava poder matar a dor habitando em mim.

Por todas as vezes as quais pedi desculpas por não conseguir realizar uma atividade rotineira e me deprimi ainda mais. Continuo implorando perdão pelas crises persistentes, pela sensibilidade aguçada e pelo choro exagerado. Eu ainda me culpo por toda a bagagem que a depressão me trouxe e pelos farrapos que ela deixou durante o caminho. Queixo-me ao meu coração, como se o coitado tivesse culpa pelo emaranhado de dores confusas que o meu cérebro ansioso alimentou. Eu ainda me apavoro ao recolher os estragos. Eu ainda me culpo. Eu ainda me culpo. Eu, realmente, ainda me culpo, sem saber pelo quê.

Eu não escolhi, eu não permiti, eu não me entreguei. Eu aceitei, e aprendi a lidar comigo.

Sono profundo. Eu a pus em sono profundo, coloquei a minha depressão para cochilar e tenho cuidado de mim enquanto ela se silencia. Eu tenho ficado mais forte, tornei-me habilidosa em fingir que não a vi bocejar, querendo levantar-se cedo demais para estar em minha sombra novamente. Ela ainda está aqui, nos confins empoeirados do meu coração culpado, adormecida para que eu sinta o que é estar em paz. Eu tive apoio, eu tive amor e eu fui salva, infinitas vezes eu fui salva. Quando eu estava menor do que ela, tamanha era a angústia, eu fui salva e continuo sendo salva todos os dias. É uma luta anual, quero que se felicitem comigo quando eu apenas conseguir levantar da cama e dobrar os lençóis. Quero que todos saibam que um dia inteiro sem pensar em dor é a maior vitória que eu já alcancei desde que ela chegou.

Há dias em que eu simplesmente me esqueço de como é sentir o sol, e nada me anima. Nestes dias eu só quero estar contra à parede, sustentar o meu próprio corpo e implorar à minha mente que não destrua nada e sustente a crise comigo, porque se ela vir, sabe-se lá quando tempo ficará e se deixará mais danos. Em dias assim, eu preciso de vocês comigo. Vocês, que distribuíram apoio e afeto o mês inteiro. Vocês, meus amigos, minha família, meu amor: em dias assim, eu preciso de vocês comigo. Não para me pedir calma, não para falar das minhas crises... Mas para ouvir dizerem que estão aqui, e sempre estarão, independente do que eu disser quando não me lembrar de quem eu sou.

Eu preciso ser salva o ano inteiro.
Setembro é só um mês.

Um comentário:

  1. "Eu morri todas as vezes em que o meu pai achou que eu estava fingindo, ou quando acharam que eu estava curada porque dei risada vendo um vídeo no celular." isso é tão real e doloroso.

    "Eu me silenciei sempre que diziam que suicídio era covardia e só amaldiçoava à alma." Isso é cruel de formas que eu nem posso por em palavras. Como jogar uma pá para quem já está cavando com os dedos o fundo do poço. É terrível.

    "É uma luta anual, quero que se felicitem comigo quando eu apenas conseguir levantar da cama e dobrar os lençóis. Quero que todos saibam que um dia inteiro sem pensar em dor é a maior vitória que eu já alcancei desde que ela chegou." vou pendurar na porta do meu quarto. <3

    "Eu preciso ser salva o ano inteiro.
    Setembro é só um mês."

    esse texto é a coisa mais verdadeira e sincera que eu já li. E me identifiquei tanto com ele que quase senti como se tivesse saído de mim.
    obrigada

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