Palavras mágicas na beira da estrada

quarta-feira, julho 29, 2015


Havia esse caderno, maldito dia em que aqueles senhores do circo de estrada me venderam essa velharia. Páginas faltando, alguns trechos arrancados, uma capa esfarrapada e muito dinheiro em troca dele. "É mágico, meu bem", me alegaram com convicção quando reclamei do valor. Que mágica teriam aquelas folhas decrépitas? Logo eu, leiga de toda anestesia religiosa, caí numa dessas extorsões de dinheiro por donos de circos baratos. 

Folheando aquelas palavras rabiscadas lá e cá, uma pena amassada no meio do livrete chamou minha atenção. Apesar de desgastada, parecia ainda nova comparada ao livro, macia e delicada em sua essência. Toquei a página com a ponta da pena que, surpreendentemente, ainda estava molhada. Um pingo preto se espalhou por alguns poucos milímetros no cantinho que eu toquei. Não é como se Tom Riddle¹ fosse responder minhas perguntas, não é mesmo?

O sol refletia nas páginas amareladas e o livro ainda em minhas mãos despertou em mim o desejo de decifrar seus fragmentos. Voltei ao início. Não tinha título, tampouco uma contracapa; abri então em sua - aparentemente - primeira página, de alguma forma que eu não havia percebido antes, seus escritos diziam para ser cauteloso com o que escreve, "as palavras podem ser mais poderosas do que você imagina", respirei fundo, parecia só mais uma dessas bobagens.

A tarde foi esvaindo-se e o sol se pôs, dando lugar a iluminação lunar. A leitura não estava exatamente agradável, mas muito interessante. As datas marcavam desde muito depois de Cristo a tempos próximos à Segunda Guerra Mundial, respirei fundo mais uma vez, não era assustador, no entanto, curioso, muito curioso. As datas anteriores narravam os acontecimentos seguintes, e assim sucessivamente, como se tivesse tornado realidade tudo aquilo que fora escrito. Numa possibilidade das datas serem verdadeiras, o livreto era mágico sim e também imensamente nocivo.

"Para cada ação, uma reação" dizia ao fim da última página, com o mesmo lembrete da primeira: "cuidado com as palavras, elas podem ser mais poderosas do que você imagina". Alguém escreveu em algum lugar dessas páginas rasgadas que não importa o que você deseja, você deve fazer acontecer e não esperar que um livro ou qualquer outro artefato mágico o faça por você, há consequências. Toda mágica vem com um preço, já dizia Rumpelstiltskin.

No fim das contas, o artigo não foi tão inútil também. Escrevi, sim, apenas uma palavra no último trecho em branco: Amor.

Esse conto faz parte da blogagem coletiva: "E se você tivesse um caderno que tudo que você escrevesse nele se tornasse realidade?" do Projeto MAIS QUE PALAVRAS, participe você também.

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2 comentários

  1. O texto já estava impecável, aí você ainda cita o Rumple ♥ "Toda mágica vem com um preço, já dizia Rumpelstiltskin."

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    1. Desde que Once Upon a Time entrou na minha vida, Rumpel se tornou meu personagem favorito <3
      Muito obrigada, pelo carinho!! ♥ Um beijo

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