Por: Rebeca Maynart | 2 Comentário(s)

A glamourização do sofrimento na internet


A difusão das mídias sociais e a possibilidade de expressar qualquer opinião a qualquer momento para centenas de pessoas simultaneamente, também viabilizou com mais eficiência o comportamento de massa. Desde a criação de sensos comuns a partir de uma minúscula nata da influência digital, à propagação de um único modo de existir e ser.

O jovem, tanto o adolescente quanto o pré-adulto — que encontra-se na fase da vida que já se é muito velho para ser adolescente, mas ainda não percebe-se como dono do próprio destino, tal qual os próprios pais, e não faz ideia de como fazer declaração de renda ou como funciona o IPTU — busca obstinadamente a condição de pertencimento e inconscientemente poda-se e se desfaz para encaixar-se nas caixinhas que lhe são propostas pelos grupos e meios sociais. Ainda que, negue tal fato incisivamente.

Nesta fase, acredita-se que é único, exclusivo, inédito. Então a internet e os memes — e as músicas sertanejas — vieram para provar-lhe que tudo o que você vive e viveu, todo mundo também o fez; e sentimo-nos pertencentes, acolhidos, compartilhando uma dor coletiva ou um fato engraçado. A partir desse sentimento, nasce o desejo coletivo de sofrer junto. De participar da grande onda de ansiedade e doenças psicológicas que aflige a geração que aqui vos fala. Ou quiçá, este martírio sempre existiu e ninguém falava a respeito. 

Sofrer é poético. 

Sempre foi? Provavelmente.

Acontece que agora esta parece a única forma de ser interessante. Existe outra maneira de existir? Ninguém contou. Ninguém conta isso nas páginas de humor autodepreciativo ou nos textos dolorosos que todo mundo compartilha e também se identifica (ou vai dizer que não ama a página Textos Cruéis Demais Para Serem Lidos Rapidamente, ou o próprio Café de Beira de Estrada? — guilty!).

De dez anos para cá o sofrimento deixou de ser algo a ser combatido e passou a ser apreciado, cultivado e fermentado. Muito embora, desde sempre — ou pelo menos, desde o século passado —, há um culto da sociedade às provações: todos adoram uma bela história de superação de vida depois de uma dolorosa jornada. Uma adoração que reforça a meritocracia e pinta a exceção como regra. Porque se alguém, um dia, andava cinquenta quilômetros a pé para estudar com uma folha de bananeira, passava fome e, ainda com todas as dificuldades, formou-se em direito e hoje mudou de vida, logo, qualquer um também pode e deve fazer o mesmo. A responsabilidade do governo de prover o básico para existência ou meios para tal — ao invés de alimentar apenas a sobrevivência — é transferida inteiramente para o cidadão e se você não tem recursos para o mínimo, é porque não lutou o suficiente. Bom, isso é assunto para outra feijoada, o que se passa aqui é que a cultura de massa exalta e edifica a dor.

Os resquícios de tal estrutura social perpetuam-se na internet e disseminam, sutilmente, tal consenso cruel. Ninguém tem certeza de quem é, ninguém tem certeza de para onde vai, mas as mídias sociais fazem-nos acreditar que esta é uma obrigação.

Não existe felicidade plena, não, este é um conceito capitalista para vender ingressos para comédias românticas e filmes de superação, todavia, não existe tristeza plena também. Não se pode ser triste, nós estamos tristes. O esmagamento do conceito de "estar" pelo inexorável "ser", aprisiona-nos a um estado de espírito que parece eterno.

Eu ainda escrevo textos melancólicos, ainda choro no chuveiro escorrendo pela parede até estar de cócoras com os dedos enfiados nos cabelos, porque é poético. Porque respiro poesia e não sei ser diferente. É como se ao arrancar todas as cicatrizes e feridas, as insanidades e questionamentos irreais, não restasse mais nada.

Em que ponto da geração digital, tornamo-nos exclusivamente nossos transtornos mentais?

2 comentários:

  1. Não posso concordar com nada mais do que concordo com isso. Estamos numa era digital onde a tristeza é sinônimo de validação e um caminho até a popularidade; é necessário que as pessoas parem e reflitam, porque ser triste não é legal. Inclusive, a banalização desses sentimentos, da vontade suicida e de todo o leque de sintomas psicológicos que afetam verdadeiramente milhões de pessoas Brasil à fora, é extremamente disfuncional para a sociedade como um todo. Pessoas que sequer cogitariam tirar a própria vida dizem tantas, tantas vezes o famoso "queria estar morta", que se tornou normal. E quando alguém diz e é verdade; bem, ninguém percebe. Porque é comum. Perdeu a seriedade que lhe era devida.
    Eu sinto muito por estarmos tão anestesiados para o que importa, que é a nossa saúde mental.

    Gratidão por compartilhar esse conteúdo tão necessário.
    Carinho,
    Yasmin.

    www.entremcc.blogspot.com

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    1. Muito obrigada, Yasmin, por contribuir com o texto e pelo carinho, seus comentários me afagam.
      Essa validação é dada através até de grandes mídias (irresponsáveis), como Netflix e aquela série que é um desserviço, 13rw, mas futuramente eu falo sobre isso.
      De qualquer forma, se o mundo não acabar numa guerra, parece estar acabando em tristeza.

      Gratidão por tudo.
      Mil beijos,
      Beca.

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