Por: Rebeca Maynart | 1 Comentário(s)

Sobre estar no lugar errado

quarta-feira, março 28, 2018

Sentada em sua cadeira desgastada, sem nenhum suporte adequado para coluna, pelo milésimo dia seguido e farta de uma rotina que lhe entediava e deprimia, cogitou, outra vez, pegar suas coisas e se mandar, sem nenhuma satisfação a quem não lhe descia a garganta. Naturalmente, bons momentos já foram bem vividos ali e esta esgotara seu fôlego centenas de vezes em gargalhadas que pareciam infindáveis; em algum momento, entretanto, saturou-lhe a habilidade de exprimir apenas racionalidade, esgotou sua disposição de reprimir-se. 

Tinha absoluta certeza de que nascera para algo muito além daquilo que se predispunha a fazer. Não que isso significasse, de qualquer modo, transformar o mundo ou fazer algo estupendo que mudasse o curso da humanidade – quiçá numa consequência, porém não como objetivo final. Almejava, suspirante, sentir, pela primeira vez (em muito tempo), saber que estava no lugar certo; sensação esta, discrepante da constante busca por uma bússola que apontasse-lhe um norte para onde seguir, a qual conhecia muito bem. 

Recomeços, por outro lado, formentam dores de barriga, náuseas e medo do escuro. Apesar do desprazer de continuar exatamente onde está, a segurança das coisas não darem extremamente errado é tentadora. Causava-lhe inquietação o mero devaneio de ter os trezentos e vinte sete dedos, que conhecia bem, apontados para si, tamanha teria sido sua audácia de metamorfosear-se tão drasticamente sem considerar o impacto disso nos planos que estabeleceram para ela, sem jamais indagarem se esta estava de acordo. 

O acento, com o passar das horas, tornava-se ainda mais desconfortável e suas orbes saltariam de sua pálpebra a qualquer momento, tanto era que as revirava durante o dia. Acordar para o infortúnio de cumprir sua rotina com má vontade, por covardia de levantar-se pela manhã e declarar a quem quisesse ouvir que, dali em diante, escreveria sua própria história em linhas tortas e garranchos expafúrdios, arrastava-a para o buraco que fendia-se dentro de si. 

Aguardava, veemente, o ímpeto de bravura e atrevimento que apanharia-lhe de súbito e a guiaria para fora da sua desventura, para levá-la aonde quisesse chegar, embora ainda não fizesse nenhuma ideia do que isso significava.

Um comentário:

  1. Ai essa sensação de desconforto com a rotina. Que texto intenso e real (para mim). Obrigada por expressar tão bem em palavras aquilo que sentimos por tantas vezes.
    Parabéns!
    E que um dia eu tenha a coragem de me levantar e mudar de caminho!
    Beijos!
    Tamara
    tamaravilhosamente.com

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